Relacionamentos

Por que tantos homens não conseguem dizer o que sentem no relacionamento

Muitos homens chegam à vida adulta sem ter aprendido a nomear o que sentem. No relacionamento, isso costuma aparecer no meio de uma discussão: ele some, se irrita ou diz que "não é nada", quando claramente é alguma coisa. Muitas vezes isso não é frieza nem falta de interesse. É falta de prática em transformar em palavras o que está acontecendo por dentro, e isso se aprende, inclusive depois de adulto.

O que acontece na hora da briga

Quem está do outro lado costuma ler o silêncio como desinteresse. Mas, em geral, ele percebe que alguma coisa mudou: o peito aperta, a voz muda, dá vontade de sair dali. O que falta são palavras para aquilo. E, sem palavras, sobram duas saídas: calar ou revidar.

Explicar não é desculpar. Sumir no meio de uma conversa importante ou responder com agressividade machuca quem está do outro lado, e a responsabilidade de mudar continua sendo de quem faz. E se a irritação vira grito, ameaça ou intimidação, já não estamos falando de dificuldade de comunicação: isso é violência, e precisa ser tratado como tal.

Ninguém nasce sabendo nomear o que sente

Dar nome a uma emoção é um comportamento aprendido, como qualquer outro: pela convivência, pela repetição e pelo jeito como as pessoas reagiram cada vez que você tentou.

Para muitos meninos, dizer "estou com medo" ou "isso me machucou" virou piada, bronca ou um "homem não chora", "para de frescura". Ao mesmo tempo, eles aprenderam que o valor de um homem se mede pelo que ele resolve, produz e prova, não pelo que sente. O que sobrou como alternativa foi agir em vez de falar: silêncio, sarcasmo, raiva, sumiço.

Com as meninas, a cobrança costuma ser outra: tristeza e medo são mais aceitos, raiva nem tanto. As pesquisas com crianças vão na mesma direção: em média, meninas expressam mais tristeza e ansiedade, e meninos, mais raiva. São diferenças pequenas, que mudam conforme a idade e conforme quem está olhando, o que indica aprendizado, não natureza. E, como é média, há muitos homens com facilidade para falar de emoção e muitas mulheres com dificuldade.

Por que o mesmo problema aparece em relações diferentes

Esse padrão costuma se repetir com pessoas diferentes, ao longo dos anos. O assunto da briga muda, a pessoa muda, mas o jeito de reagir quando algo dói continua o mesmo, porque é o único que você aprendeu.

Daí vem a pergunta que muito homem já se fez: "por que meus relacionamentos sempre terminam do mesmo jeito?" ou "por que eu só me envolvo com pessoas iguais?". Vale olhar para o que essas histórias têm em comum. O ponto em comum é você. Mais especificamente: o jeito como você aprendeu a reagir quando algo incomoda. E isso pode mudar.

Isso não é exclusividade de homens heterossexuais. Homens gays e bissexuais têm histórias próprias, mas também cresceram ouvindo as mesmas regras sobre o que homem pode ou não pode sentir.

Dá para aprender depois de adulto?

Dá. Aprender a nomear o que sente passa por perceber o que acontece no corpo, dar um nome a isso e dizer em voz alta, de preferência antes que a coisa exploda. Começa pequeno: "não sei explicar ainda, mas isso me incomodou" já é bem melhor do que sumir.

Se você se reconheceu aqui, a psicoterapia é um bom lugar para entender de onde esse padrão vem e treinar outras formas de reagir. É um dos temas que trabalho na psicoterapia para homens.

Perguntas frequentes

Por que homens têm mais dificuldade de falar sobre sentimentos?
Em grande parte, por aprendizado. Muitos meninos são desencorajados a falar de medo, tristeza ou mágoa e incentivados a resolver, agir e não demonstrar fragilidade. A diferença entre homens e mulheres nesse ponto existe em média, é pequena, e boa parte das pesquisas a relaciona à forma como cada um foi criado.

Isso é alexitimia?
Não necessariamente. Alexitimia é o nome que a psicologia dá à dificuldade de identificar e descrever as próprias emoções. Alguns pesquisadores usam a expressão "alexitimia normativa masculina" justamente para a versão aprendida e comum entre homens, que não é um diagnóstico. Só uma avaliação com um profissional pode dizer o que está acontecendo no seu caso.

Gabriela de Campos Almeida é psicóloga (CRP 06/213003) e terapeuta comportamental contextual. Atende online, para todo o Brasil e exterior, e presencialmente em São José dos Campos (SP).

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